Mulheres que Correm com os Lobos - 6: O Cristianismo

Como disse anteriormente, a autora chama o Cristianismo de nova religião e de religião artificial como formas de depreciá-lo. Apesar de no começo a obra a autora fazer críticas sutis e até mesmo indiretas, aos poucos essas críticas vão ficando mais duras. Ao final, dá-se a entender que o Cristianismo é culpado por todos os problemas, atuais ou não, concluindo-se que o retorno ao passado idílico da sociedade matriarcal (com sua religião matrifocal), comentado no post anterior, é a solução.

A questão é que o Cristianismo trouxe um fator até então pouco trabalhado em sociedades antigas: a transcendência. Ser cristão é transcender este mundo e seguir o que o Pai ensinou, com todas as perseguições e revezes, sem ceder pela fé. Ao contrário do que pensam, não é jogar os problemas para um futuro, ou ficar de braços cruzados esperando um milagre, mas ter a fé de que a boa conduta na Terra permitirá alcançar a glória dos Céus.

Não existe transcendência alguma no livro. É a ideia de que tudo deverá ser feito aqui e agora, pois não haverá depois. Mesmo o além-mundo da Grécia Antiga é menosprezado pela autora, considerado por ela mera carga simbólica. É bom ressaltar que Clarissa Pinkola Estés não aprecia a mitologia grega, pelo fato de as deusas terem conduta divergente do movimento feminista, valorizando a família e a castidade.

Quando Pinkola Estés fala de religiões antigas, ela não especifica quais são, mas resume tudo na "vala comum" de "religião natural", que seriam cultos à terra e às estações, ligados ao ciclo de colheitas, às fases da lua, entre outros elementos que ocorrem na natureza. Por isso a autora considera o Cristianismo uma "religião artificial", pois não leva em conta nenhum desses aspectos, direcionando o cristão a ir além do material e buscar o espiritual, o contato com Deus.

Fé e transcendência são conceitos interligados. É o que permite que as esperanças sejam renovadas e que atitudes além do ordinário sejam tomadas. Muitas vezes pergunta-se por que as pessoas não tomam determinadas atitudes, e a resposta é simples: porque isso as tiraria da rotina, tornaria a vida além da percepção limitada, e elas não sabem (nem querem) conviver com isso. Ser cristão (de verdade) é ter uma vida reta, marcada por perseguições, pois boa parte das pessoas (mesmo que se dizem cristãs) não aceitam essa mesma vida reta que dizem seguir.

Para que pintar se pensa-se apenas no prazer pessoal? Para que escrever se é para deixar guardado numa gaveta, ou mesmo ter o gosto por si mesma? A autora, que é tão obcecada por criatividade, ignora que esta só faz sentido se for além do corriqueiro. Obras sem significado não evoluem a sociedade, mas entenda: para a autora, a arte só é útil em nome da causa. Como fica claro no capítulo sobre a raiva, todo impulso deve ser direcionado para a causa, para o Feminismo, tão presente na obra que nem precisa ser chamado pelo nome, sendo que qualquer divergência deva ser cortada ou neutralizada.

A autora faz duas referências à Bíblia, uma equivocada e outra correta, mas fora do contexto. Também acredita que Nossa Senhora seja um remanescente de algum culto antigo dentro do Cristianismo - inclusive com recomendação de um livro sobre na Bibliografia. É tentar forçar a barra para apagar da mente das mulheres a existência da transcendência e de que "estamos aqui apenas de passagem", para programar a ideia de que nada mais somos além de um corpo que irá desaparecer.

Comentários