Mulheres que Correm com os Lobos - 7: Referências Problemáticas

Ficou claro ao longo dos posts até agora que a autora não se preocupa com as referências e citações que utiliza. Logo no começo da obra, é de se estranhar as afirmações sem ao menos informar suas origens, como se tivessem sido concluídas pela própria autora. Como já dito anteriormente, boa parte das afirmações são de outras obras, como O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir.

Para uma pesquisadora Ph. D., a ausência de referências e citações é no mínimo suspeita, para não dizer desonesta. Quando são obras literárias de seu meio cultural, os autores são apresentados e a quais livros pertencem, além de estarem na Bibliografia. Fora disso, há problemas com obras consagradas e até mesmo com etimologias das palavras utilizadas. Alguns exemplos para ilustrar são importantes.

Informa a autora que a monja e mística cristã Sta. Hildegarda de Bingen afirmou em sua obra que "a alma é uma pena ao sopro de Deus". Nas notas, consta que foi consultado um manuscrito na Alemanha. No entanto, ao pesquisar a cota (localização do manuscrito), a cidade de localização do documento está errada, e não houve correção em edições posteriores.

A obra do manuscrito em questão é o Scivias, a principal de Sta. Hildegarda, onde são relatadas suas visões. Por ser uma obra popular no meio católico, não faz sentido algum o deslocamento até a Alemanha para ler o original - os pesquisadores trabalham arduamente para as traduções serem fiéis ao original, e mesmo a transcrição da obra está disponível nas livrarias.

A versão digitalizada do Scivias está indisponível para o grande público, ou seja, não dá para confirmar se Clarissa Pinkola Estés realmente o leu. Por outro lado, pesquisando na transcrição do Scivias, a informação citada não é localizada. Como Pinkola Estés informa a cota mas não o fólio (página) onde se encontra a afirmação de Sta. Hildegarda, não dá para concluir se a descrição da alma é essa mesma. Isso sem contar que na descrição a alma feita por Sta. Hildegarda consta um corpo humanoide com braços e pernas, enfim...

Outro exemplo é uma referência à obra de C. S. Lewis, onde um personagem teria um frasco com lágrimas de criança. Ao pesquisar nos livros, encontra-se nas Crônicas de Nárnia um frasco cujo conteúdo é utilizado para limpar óculos, sem referência à composição deste conteúdo - fora a utilidade demasiadamente corriqueira. Pinkola Estés não informa em qual obra haveria esta informação, o que dificulta a localização e confirmação.

Mais um exemplo é a expressão arigato zaishö, que Pinkola Estés traduz como "obrigado, ilusão". Zaishö não existe no léxico japonês, e não há nenhuma referência a esta expressão a não ser no próprio Mulheres que Correm com os Lobos. No mínimo suspeito uma informação constar apenas em um livro, que não é especializado na área, e não haver nenhum debate ou discussão sobre - apenas reprodução da informação ao longo dos anos.

Saindo do exemplo na língua japonesa, há exemplos de referências problemáticas em outras línguas: Pinkola Estés afirma que o verbo inglês forebear vem do alemão verbern e significa "suportar, ter paciência". Primeiramente que verbern não existe: o que existe é ebern, que significa herdar. Do próprio Oxford English Dictionary, que a autora afirma ser a fonte da informação, forebear vem do inglês do século XV, significando "alguém que existe".

Para finalizar, Pinkola Estés faz duas referências bíblicas, como disse em post anterior, mesmo sendo tão crítica ao Cristianismo: em uma delas, não há nenhuma informação de qual livro, capítulo e/ou versículo onde se encontra; já a outra faz parte do livro do Eclesiástico, capítulo 17, com um detalhe: a passagem está fora de contexto, não faz sentido com o que é afirmado no livro. A autora fala que são sete os sentidos que as pessoas possuem (página 552):

"Segundo os ensinamentos antigos, os sentidos representam aspectos da alma, ou do 'santo corpo interno', e devem ser exercitados e desenvolvidos. Embora o trabalho seja longo demais para ser exposto aqui, gostaria de dar apenas uma olhada nessa antiga tradição. São os seguintes sete sentidos e, portanto, as sete áreas de tarefas a cumprir: animação, sensação, fala, paladar, visão, audição e olfato."

No entanto, lendo o que está na Bíblia, não faz sentido algum com o a autora afirma. Vejamos:

"5. De sua própria substância, deu-lhe uma companheira semelhante a ele, com inteligência, língua, olhos, ouvidos e juízo para pensar; cumulou-os de saber e inteligência."
Eclesiástico, 17 - Bíblia Católica Online

Leia mais em: https://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/eclesiastico/17/

A única semelhança entre a afirmação do Mulheres que Correm com os Lobos e a Bíblia é que ambos falam de sentidos, fora isso, cada obra vai para um caminho. Continuando o texto bíblico, é apresentado o que Deus fez para os homens e os deveres a serem seguidos para perdão de seus pecados e manutenção da aliança. O que não está no livro de Pinkola Estés que, como disse anteriormente, considera o Cristianismo uma religião "artificial".

Posso ter me enganado em algumas referências? Sim. No entanto, o livro é permeado de afirmações sem procedência e de referências problemáticas, o que daria, inclusive, para escrever um outro livro com essas reflexões. Contudo, acredito que Mulheres que Correm com os Lobos não merecem uma análise de fontes tão aprofundadas, mas sim referente ao que é proposto, e mesmo em relação aos métodos utilizados.

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