Mulheres que Correm com os Lobos - 11: Sapatinhos Vermelhos

Há algumas histórias que chamam atenção no Mulheres que Correm com os Lobos, mesmo que o objetivo seja apenas a reprogramação da mente da leitora para a causa feminista: Sapatinhos Vermelhos e La Llorona. Eu poderia comentar sobre A Donzela sem Mãos, mas em resumo é uma história na qual dá-se a entender como um ciclo de formação feminista no qual a leitora abre mão de seus valores para abraçar a causa, ou sobre Pele de Foca, em uma narrativa semelhante, só que abandonando filho e marido ao invés dos pais.

Sapatinhos Vermelhos, da forma que a autora narra, é chocante. Não conheço outras versões para confrontar, além de ter conhecido essa história por este livro. O subterfúgio de "pesquisar histórias" e contar o que considera conveniente deixa claro o propósito manipulador das histórias contadas, ainda mais quando Pinkola Estés faz observações sobre valores e elementos cristãos. Esta história parece mais forçar o firewall da leitora do que trazer elementos de análise.

Em resumo, é a história de uma menina que morava em uma floresta e foi adotada por uma senhora idosa e rica. A guria não conseguiu adaptar-se aos costumes da sociedade e acabou por apaixonar-se por um par de sapatos vermelhos que começaram a dançar sozinhos. Os sapatos são retirados, a muito custo, mas a garotinha os pega sem que a senhora perceba. No final da história, os pés da menina precisam ser decepados após dias e dias de dança frenética.

Um ponto importante a ser destacado na história são os elementos cristãos distorcidos. A garotinha foi crismada, este é um sacramento católico - então pode-se deduzir que a história se passa em uma paróquia, e que todos os elementos referentes ao Cristianismo são católicos. O primeiro problema que surge é: para a menina ser crismada, é necessário ter a Primeira Comunhão, algo que não se sabe se ela tinha, mas se lembre de que ela morava numa floresta, supostamente sem contato algum com a civilização.

O segundo problema é o tal "espírito guardião" da igreja que barrou a entrada da guria e ainda agravou sua maldição. Ora, é parte do Cristianismo auxiliar as pessoas, independente de quem sejam, e abrandar seus sofrimentos. Amaldiçoar alguém equivale a amaldiçoar a si mesmo, mesmo quando a pessoa acha que está fazendo o bem pra outra - e depois fica reclamando por aí que a vida está caótica.

Esses elementos confusos servem para criar não só uma ideia errônea de Cristianismo, mas para deixar a mente confusa para novos conceitos, como a depreciação do mundo civilizado. A educação dada pela senhora para que a menina tivesse uma vida melhor do que a miséria na floresta é vista apenas como limitadora da criatividade, outro conceito também muito deturpado.

A própria autora tenta argumentar que as crianças não devem ser limitadas para que não haja perda da criatividade. Contudo, são os limites que dão base para as crianças desenvolverem-se, pois precisarão utilizar a criatividade para adaptar-se às regras. Sem limites, as crianças (e mesmo os adultos) ficam sem parâmetros para viver, deixando de desenvolver o próprio potencial, ou mesmo desenvolvê-lo para fins maldosos - isso sem dizer que se ficam mais fáceis de ser manipuladas.

Comentários