Mulheres que Correm com os Lobos - 3: Sobre Contos de Fadas

Cabe nesse post uma observação importante: a definição de contos de fadas. Para esta análise, baseei-me no livro Árvore e Folha, de J. R. R. Tolkien. Na primeira parte do livro, Sobre Histórias de Fadas, Tolkien apresenta o que são os contos de fadas, analisando as coletâneas existentes em sua época e explicando que a maior parte delas não possui contos de fadas legítimos. Na segunda parte, é apresentado um conto de fadas de exemplo - de autoria do próprio Tolkien.

Boa parte do que hoje é chamado de conto de fadas nada mais é do que uma história popular, passada pelas gerações, sofrendo alterações, e mesmo adulterações em alguns casos. No livro Mulheres que Correm com os Lobos, a autora não busca uma versão original, ou a versão mais antiga preservada, como uma das características dos contos de fadas, mas sim a criação de uma "versão original", com elementos que a autora considera oriundos de antigas religiões - anteriores ao Cristianismo -, chamados de "esqueletos" das histórias.

Outra característica dos contos de fadas é que são histórias do Belo Reino, do Mundo das Fadas. Esse mundo aparece em pouquíssimas histórias, o que acaba por excluir praticamente todas da denominação "contos de fadas". Pode-se falar também que nos contos de fadas, as promessas devem ser cumpridas: Sapatinhos Vermelhos e Pele de Foca são dois bons exemplos de promessas que não são cumpridas, com consequências desastrosas mas deixadas de lado pela autora.

A última característica dos contos de fadas, que cabe aqui, é que sempre deverá haver um final feliz - não existe derrota final em contos de fadas. Se praticamente todas as histórias do livro em análise foram excluídas, esta característica finaliza qualquer pretensão a uma delas ser considerada "conto de fadas". Nessa categoria entram, por exemplo, La Llorona, Sapatinhos Vermelhos e Menina dos Fósforos.

Não sei se Clarissa leu esta obra ou qualquer outra de Tolkien - o fato de não estar na Bibliografia não significa que não tenha lido. Ela até pode ter lido, mas sem interesse em indicar, afinal Tolkien era católico e suas obras transmitem valores cristãos e antirrevolucionários - mesmo que alguns leitores não percebam, pelas distorções ocorridas sobre os conceitos do Mundo das Fadas como os da própria autora do Mulheres que Correm com os Lobos.

Comentários