Mulheres que Correm com os Lobos - 10: Os Lobos

Os lobos são um dos elementos de menor importância do livro, apesar de serem parte do título deste. Tanto é que em meus rascunhos foi deixado para o final, apenas antes dos esboços sobre bibliografia e encerramento dessa série de posts. Por mais que a obra leve seu nome, o lobo no livro é muito mais um símbolo do que uma reflexão em si. Tanto é que a deusa de Pinkola Estés é a Mulher Selvagem, não a Mulher Loba - e La Loba é algo secundário, mero epíteto.

A autora faz algumas analogias com os lobos ao longo da obra. Informa que conviveu com eles ao longo da vida e estudou sobre seu comportamento. Contudo, ao longo das páginas isso não se apresenta: o que Pinkola Estés fala sobre lobos, poderia ser sobre leões, tigres, até aves ou mesmo, para esculachar, baratas. A autora não cita um estudo científico sobre lobos, nem mesmo algum que tenha sido publicado por ela.

A alcateia de Pinkola Estés é uma tribo utópica de seres humanos convivendo harmoniosamente em um paraíso socialista. Dizer que pulam, farejam, escavam, uivam e mordem é apresentado em aulas de biologia ou mesmo em documentários do NatGeo. Comportamentos mais específicos, como a hierarquia da alcateia, o sacrifício que um lobo faz pela matilha, ou um comparativo com outras comunidades animais, como formigas e felinos, não existe.

Sem contar a ausência de referências bibliográficas sobre o comportamento dos lobos. Não consigo deixar de pensar nas lagostas de Jordan Peterson, estudadas com tal esmero que há referências até ao estudo feito com aplicação de Prozac nelas - são cerca de 30 notas de capítulo em 12 Regras para a Vida. Lembrando que ambos são psicólogos e que ambos são pesquisadores de áreas análogas: simbologias culturais para utilização em terapia.

Cabe aqui uma reflexão minha - minha mesmo. Humanos são animais de rebanho, vivem em grupo para proteger-se, e eu já escrevi sobre aqui no blog. Se Clarissa conhece a vida no mato tão bem quanto diz conhecer, deve saber disso - e aí as metáforas com lobos criam uma atmosfera de mulheres fortes e independentes. E mesmo o movimento feminista ganha uma conotação de matilha onde as mulheres se ajudam e se defendem.

Essa ausência de informações mais profundas sobre lobos passa batido para a leitora que está encantada com as histórias contadas. Quem ouve o título do livro pode pensar naquela tribo de lobisomens da saga Crepúsculo, ou mesmo imaginar um grupo de mulheres nativas correndo com suas lanças em meio a uma alcateia. No final das contas, nem mulher, nem lobo: a leitora torna-se um animal encurralado na fila do abate.

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