Mulheres que Correm com os Lobos - 9: Sobre a Raiva e o Direcionamento

Não irei me deter no que a autora do livro define por raiva e por perdão. Esse será o gancho para uma outra reflexão da qual esta se deriva. Percebi que escrevi muito sobre o livro, mas ainda há pontos importantes a serem analisados. Um deles é o que pode ser chamado de conveniência do movimento, deturpando valores e reprogramando a mente da leitora para a causa feminista.

Como disse anteriormente, as histórias servem apenas para desligar o firewall das leitoras e assim conseguir reprogramar suas mentes de forma mais fácil. No caso da raiva, fica patente que o problema não está na raiva em si, mas no direcionamento que é dado. Pinkola Estés faz um elogio à raiva, como um mestre que provoca as mudanças necessárias para a pessoa.

Quem conhece o blog sabe o que eu já disse sobre o nível de consciência da Raiva (150) e da necessidade de superá-la. Sentir raiva não é bom, devendo a pessoa transcendê-la para atingir níveis mais altos de consciência. O próprio Hawkins fala que é possível usar a energia da raiva para elevar o nível de consciência, mas deve-se tomar cuidado pois é algo que destrói o que há em volta e esgota a energia da pessoa.

Com isso em mente, chega-se ao ponto principal do capítulo 12 da obra de Clarissa: a raiva só é boa se for direcionada a favor da causa. Ela mesma chega a falar de "movimento das mulheres", para não usar o termo Feminismo, e de uma raiva coletiva que acomete as mulheres, sobretudo pelo meio ambiente. Novamente Feminismo e ambientalismo são ligados para reforçar o combate contra a sociedade atual, uma ideia de que para preservar o meio ambiente, a mulher deve ser valorizada, e vice-versa.

Estendendo-me um pouco mais nesse ponto: a sociedade ideal feminista é ambientalista que cultua a terra e segue os ciclos das estações e das colheitas. Deixa de existir a transcendência cristã, cuja fé supera o mundo, para dar destaque à imanência de que tudo deve ser vivido aqui.

Ao longo do capítulo, Pinkola Estés comenta sobre o perdão e a dificuldade de perdoar. No entanto, esse perdão nada tem a ver com a noção transcendente cristã de superar os pecados e se tornar uma pessoa melhor a cada dia que passa. O perdão que existe no Mulheres que Correm com os Lobos nada mais é que a mulher esqueça do assunto para não lhe causar mais danos, podendo nunca acontecer, inclusive.

Interessante notar nesse ponto que Pinkola Estés afirma que a mulher pode nunca esquecer do trauma, que este voltará de tempos em tempos. Contudo, a técnica que ela ensina para "enterrar" problemas gera a lembrança constante de que eles existiram, o que não liberta o trauma e sim o eterniza. Porém, como dito anteriormente, essa raiva não liberta tem por objetivo o direcionamento para a causa: lembrar-se dos traumas no momento apropriado pode ser o combustível necessário para a mudança revolucionária.

Chega a ser contraditório a autora falar ao mesmo tempo do uso da raiva para revolução e da necessidade de perdoar. Como disse: uso da raiva para revolução. A raiva só deve ser usada pelo bem da causa - vide as feministas histéricas que encontramos por aí. Se a raiva for meramente pessoal, ou mesmo contra o movimento, as lições sobre perdão deverão ser aplicadas, pois aí não serão de valia.

Mulheres que Correm com os Lobos é um manual feminista que não utiliza o termo Feminismo e seus derivados, apesar de citar movimentos feministas nas notas do final do livro e ter livros de editoras feministas na Bibliografia. O livro busca reformular a mente da leitora para aderir ao movimento de forma indireta, reprogramando seus padrões de pensamento, direcionando-os para a causa. Coisas ruins são consideradas boas se for pelo movimento, e coisas boas que poderão enfraquecê-lo deverão ser dispensadas.

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