Mulheres que Correm com os Lobos - 12: La Llorona

A outra vez que eu ouvi falar da Chorona, fora o livro em análise, foi no seriado Chaves, em um episódio onde comentavam sobre assombrações. Ela é o equivalente hispânico do Velho do Saco: uma pessoa que leva embora crianças mal comportadas. No entanto, a história de La Llorona vai além de uma sequestradora, e Pinkola Estés tenta colocá-la dentro dos princípios feministas a todo custo.

De acordo com a autora, La Llorona é uma moça que teria aceitado casar-se com um homem que estava perdidamente apaixonado por ela e tiveram dois filhos. Depois de um tempo, ele anuncia que precisa voltar para a Espanha e que levaria os filhos junto para terem uma vida melhor. A moça não aceita e se joga num rio com as crianças. Ao chegar ao Céu, o porteiro (acredito que seja S. Pedro) diz que ela está perdoada, mas para entrar precisaria trazer as almas dos filhos, perdidas no fundo do rio. A lição que ficaria é a de que as crianças não poderiam ficar até tarde brincando fora de casa: La Llorona poderia levá-los embora como se seus filhos fossem.

Clarissa Pinkola Estés conta também uma segunda versão, com viés ambientalista, na qual o rapaz é um grande industrial cuja fábrica acaba por poluir o rio no qual La Llorona joga seus filhos para que não sofressem com as mutações causadas pela água contaminada que beberam. Em ambas as versões o infanticídio acontece, e para a autora isso não é levado em consideração. Ter de voltar para a Terra para resgatá-las não é visto como uma penitência para tomada de consciência e arrependimento do pecado que cometeu.

Considerando a primeira versão como principal, a pior coisa que o homem fez foi não honrar o casamento, informando que iria embora para assumir outro compromisso. No entanto, não se sabe se isso foi mero capricho ou imposição da família dele - o que pode ter acontecido, inclusive. O fato de levar as crianças junto atenuaria a situação: poderia não honrar o casamento, mas se comprometeria em criar os filhos da melhor forma possível.

La Llorona não aceita o proposto pelo marido - até aí tudo bem. No entanto, por que matar os próprios filhos? Pode-se entender num primeiro momento que ela não acredita que o pai irá cuidar das crianças - tudo bem também. Atirá-los no rio não é um sinal de desespero, mas sim de maldade: a ideia de vingar-se da forma mais sórdida possível. É isso que se deve ter em mente ao ler a análise de Pinkola Estés.

Como disse anteriormente, a autora trata o infanticídio com indiferença. Seu esforço de passar pano para La Llorona e acusar o rapaz é tamanho que a busca pelas crianças é vista como um obstáculo para descansar em paz e não uma punição. Tentar tirar a responsabilidade de La Llorona é dar a entender que mulheres podem cometer atrocidades, pois sempre haverá um homem culpado. E não serão apenas "crianças de ideias" (parafraseando Pinkola Estés) que serão mortas.

A segunda versão é uma forma de forçar a culpa do rapaz como poluidor do meio ambiente. Nessa versão, o homem recusa-se a cuidar das crianças - o que novamente não justifica o infanticídio. Crianças adoecem, crianças podem nascer sem a visão, e mesmo assim podem viver e ter uma vida digna: basta uma mãe com coração bondoso esforçar-se. Dentro de uma ideologia na qual o transcendente inexiste, "descartar pessoas" é comum e acabar a vida é "descansar em paz, o resto que se dane".

Em diversos pontos do Mulheres, é comentado sobre filhos, mas não sobre maridos. Mesmo o conceito de família é apresentado como algo mais afetivo do que sanguíneo, como na teoria do zigoto errado, onde a autora faz troça com a falta de ligação entre familiares. Muitas vezes há mais contato e mesmo intimidade com pessoas externas ao nosso círculo familiar do que com a nossa própria família sanguínea, no entanto deve-se levar em consideração que a família da qual Pinkola Estés fala é o próprio movimento feminista - e ao longo do livro fica claro o objetivo de romper vínculos familiares em nome do movimento.

Isso pode ser exemplificado em outro ponto do livro, onde a autora fala de uma prática em grupo que ela realiza na qual mulheres apresentam familiares femininos para as colegas, contando os segredos que lhe foram confiados. Pode-se ver isso como uma forma de criar elos entre feministas para gerar laços de dependência e - por que não - de chantagem. Pinkola Estés comenta que os segredos devem ser contados, independente de quais sejam. A autora não discerne os tipos de segredos, se são traumas ou informações confiadas para permanecerem sigilosas.

É bom ressaltar também, para finalizar, que quando a autora fala de criatividade, é deixado de lado o cuidado com a casa e com a família para dar total prioridade a atividades como pintar, escrever, dançar e cuidar do jardim. Como se fazer uma boa refeição não precisasse de criatividade, ou mesmo cuidar de uma pessoa doente. Por mais que ela tente aparentar que tudo isso está no mesmo grau de prioridade, é notório no livro que dançar é mais importante que o próprio marido, e que as rotinas familiares não podem ser adaptadas pelo bem de todos.

Comentários