Shazam! (2019)

Shazam é um filme que merece atenção. Não irei comentar sobre a história nos quadrinhos, ou quão próximas são ambas as versões, mas como Shazam é um herói de verdade. Apesar de ser apenas um garoto de 14 anos, desastrado e sem noção, ele foi escolhido para herdar um poder ancestral por conta da pureza do seu coração: a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, a resistência de Atlas, os raios de Zeus, a coragem de Aquiles e a velocidade de Mercúrio.

Todo esse poder para combater os Sete Pecados Capitais, que podem lançar a humanidade no caos e na barbárie. Pode-se até pensar no anime Nanatsu no Taizai, mas a temática de Shazam lembra uma história medieval conhecida como A Guerra dos Vícios conta as Virtudes, copiada em diversos mosteiros, com um estilo que hoje é conhecido por gore: as Virtudes lutam contra os Vícios em combates mortais, narrados (e ilustrados) com riqueza de detalhes - aqueles que não irei citar aqui.

Não sei se o autor de Shazam conheceu essa história, mas não deixa de ser interessante a roupagem dada a esse assunto: um menino que comete diversas infrações para reencontrar a mãe acaba sendo adotado por uma família em que todos são adotados - os pais foram crianças adotadas que decidiram adotar crianças e criá-las com todo amor e carinho. Mesmo em uma família amorosa, o guri não desiste de procurar a mãe e seus irmãos decidem ajudá-lo.

Aí que vem um detalhe interessante: o que dá força a Shazam não é o pacotinho de poderes mágicos que ele ganha, mas a sua bondade. Aprender a utilizar os poderes (e mesmo ganhar dinheiro com eles) é um meio que pode ajudá-lo a reencontrar a mãe, afinal ele acredita que ambos se separaram em meio a uma multidão e ela não conseguira buscá-lo até então.

Nisso chega o ponto principal da história: Shazam descobre que fora abandonado pela mãe. Ela não quis buscá-lo, tampouco permitiu que entrasse em sua casa após o reencontro. Depois de tantos anos procurando a pessoa mais especial para ele, esse realmente foi um teste de heroísmo: ao invés de corromper-se ou se revoltar, Shazam volta para salvar seus irmãos e a cidade das garras de um homem frustrado que é usado pelos Sete Pecados para roubar o poder de Shazam.

Shazam é o campeão da virtude. Pode não ter a pompa dos super-heróis tradicionais, mas não perde em valor para nenhum deles. Por isso não pode ser considerado um anti-herói, como alguns gostariam, por conta de seus princípios: ele faz troça dos Sete Pecados, fingindo que aceitaria ser usado por eles, meramente para tirar sarro de seus irmãos.

Como disse antes, não é errado pensar que uma família adotiva pode ter laços mais fortes que a da família sanguínea, e mesmo amigos podem ser mais próximos que muitos irmãos de sangue. Mulheres que Correm com os Lobos fala nesse assunto numa perspectiva feminista, de uma pseudo-família unida apenas pela causa. Shazam fala de uma família unida independente das circunstâncias, que se sacrifica pelos seus membros - como uma verdadeira matilha, não a organização de seita do livro de Pinkola Estés.

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