A Sociedade das Pessoas Substituíveis

Mandaram-me um vídeo de um influenciador digital que dizia não ouvir a própria mãe por ela não ter "relevância nas redes sociais". Em um primeiro momento, fiquei estupefata, tanto quanto o entrevistador. Depois, passei a refletir sobre o que o entrevistado acabara de dizer e não achei tão absurdo assim. Não que ele esteja certo, mas essa é a forma que as pessoas pensam hoje em dia, sem verbalizar de forma tão escrachada.

As redes sociais, no geral, priorizam mais a tal da "relevância" do que o conteúdo em si. Conheço pessoas que preferem assistir a canais de baixa relevância no YouTube por considerá-los de melhor conteúdo, mesmo com a plataforma tentando empurrar goela abaixo "conteúdos relevantes". E essa relevância quase nunca é conquistada por mérito: na maior parte das vezes, é alguém "já relevante" que indica um sucessor - quando não por meio imoral, o qual não irei escrever aqui.

Isso mostra uma coisa: não importa o que você faça, ou quem você seja, você é apenas mais um, que pode ser trocado (ou eliminado) a qualquer momento, conforme as conveniências de sei lá quem. Esse é um meio de controle social interessante, pois anula as capacidades e os diferenciais das pessoas que, em algum momento, podem se voltar contra a ordem vigente em caso de tirania ou arbitrariedade, colocando no lugar pessoas leais à causa, facilmente manipuláveis, sem nenhum brilho ou diferencial.

Ser uma pessoa única, hoje em dia, não é mérito para mais ninguém. Inclusive se tornou um revés: as pessoas não aceitam mais depender de alguém que faz algo de forma única, preferindo elas mesmas fazer, mesmo que não fique tão bom quanto, ou até mesmo ficando péssimo, porque esse alguém tem outra visão de mundo, incompatível seja lá com o quê. Anular pessoas insubstituíveis tornou-se questão de sobrevivência dos medíocres, que se nivelam pela "relevância" e pelos "contatinhos" que possuem.

Preste atenção como novas ideias e visões diferentes de uma situação são ignoradas: não se dá mais o luxo de responder, pois o risco de expor a ignorância e o preconceito é alto. Então apenas se ignora, como se aquilo não tivesse valor nenhum, ou mesmo apela-se ao argumento "ad hominem": a pessoa não é especialista, não sabe do que está falando, é de uma posição subalterna, é de uma posição política inadequada, e por aí vai.

É difícil encontrar boas ideias e bons trabalhos, como se não existissem mais. Não há mais diálogo da internet: todos querem falar, mas ninguém quer ouvir - quando não o contrário, ouvintes não encontram falantes. Repare que, em redes sociais, os grupos não organizam mais as mensagens por tópicos, dando continuidade aos assuntos, mas sim em timeline: mensagens soltas, sem nada que as organize, seguidas de memes e curtidas, como um vozerio disperso de uma aglomeração.

Não pense que essas ideias perdem-se por aí: como disse antes, os medíocres tentam aproveitá-las, da pior forma possível, para ficarem com os louros e permanecerem "relevantes". O resultado é vazio, sempre faltando algo - um toque pessoal ou um brilho que só o "indesejável específico" pode fazer. É incrível como uma pessoa medíocre consegue destruir coisas boas, e mais incrível ainda é como há tantas pessoas vazias de grande destaque na sociedade, sem méritos, altamente substituíveis para fazer aquilo que é mais conveniente ao sistema.

Reverter isso depende de duas condições: a primeira é cada pessoa aceitar a capacidade e o mérito da outra, independente de qualquer coisa - afinal todos somos seres humanos, com potenciais e capacidades únicas. A segunda condição é buscar desenvolver o próprio potencial, abrindo mão da mediocridade e da mesmice. Aceitar que o outro é melhor que você em algo abre caminho para que você descubra em que você realmente é bom - independente do que digam.

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